quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A violência e a separação
Um conceito que sempre me intrigou foi o conceito de não-violência. Quero dizer: sempre me pareceu um conceito óbvio demais. É claro que agredir os outros é “errado”, desde pequenos aprendemos isso. Ou ainda uma outra abordagem é a do carma: não agrida o outro, pois essa agressão retornará para você em seguida. Mas por quê? (e eu não sei se esse é o por que certo para ser usado nesse contexto, mas whatever).
Andei então refletindo sobre esse assunto e a minha concepção atual sobre não-violência mudou um pouco. Acredito que o ato de violência seja, de fato, o ato que legitima da forma mais profunda possível a separação entre o sujeito agressor e o sujeito agredido, o eu e o outro. Se eu posso te agredir, é porque eu não sou você. Ninguém em um estado “normal” de consciência deseja agredir a si mesmo, mas as pessoas agridem umas às outras como se fosse a coisa mais fácil do mundo, mesmo para defenderem os seus egos. O lado negativo do carma surge naturalmente, pois independente da ilusão da separação gerada pelo ego, essa ilusão não pode afetar a realidade última que é a unidade de todas as coisas e por isso, ao agredirmos ao “ outro”, estamos na verdade agredindo a nós mesmos. Dessa forma, a busca pela não-violência vai muito além do hábito de não agredir e não causar sofrimento ao outro, mas visa acabar com a separação criada pelo ego, busca a unidade de todas as coisas e dessa forma a liberação final do carma.
A mensagem do budismo é realmente uma mensagem muito simples, mas ao mesmo tempo muito profunda e muito bela. Embora ainda esteja a anos-luz de distância de experimentar realmente a filosofia budista na minha vida, este é um caminho que tem me encantado cada vez mais e me estimulado a conhecer sempre mais dessa fonte inesgotável de luz que é a filosofia oriental.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Caminhos já trilhados
Ainda existo, por enquanto. Esses dias resolvi aproveitar o tempo livre para criar uma rotina de meditação e vim escrever hoje alguma coisa sobre uma compreensão minha alcançada com uma certa dificuldade e às custas de experiência própria.
Por um bom tempo eu quebrei a cabeça com a idéia de seguir os ensinamentos dos grandes mestres iluminados. Quebrei a cabeça pois acho que inicialmente o fazia sem prestar atenção, mecanicamente, e por isso não alcançava nada que não fosse apenas uma imagem, uma representação para o mundo, uma máscara. Depois disso, deixei de seguir qualquer coisa e decidi ser eu mesmo, fazer o que quisesse, seguir a minha própria vontade e sem a "ajuda" de ninguém. Foi um passo importante, pois realmente me fez começar a trilhar o caminho do desap-ego, de alguma forma hehehe (perdoem o neologismo absurdo, mas importante).
Só que essa pretensa liberdade de trilhar o caminho que quisesse me subiu um pouco à cabeça. Acho que inconscientemente eu comecei a rejeitar qualquer caminho já trilhado por outros, pois se foram trilhados por outros não poderiam ser trilhados por mim. Logo eu, o grande superior a tudo e a todos, conquistador do novo aeon, mensageiro de luz da humanidade, trilhar o mesmo caminho dos outros? Impossível!! Realmente uma grande besteira, mas o inconsciente anda por caminhos tortuosos e cabe a nós aceitar esta estrada, pois o caminho consciente passa antes pelo inconsciente e sem ele não poderíamos alcançar o fim da estrada.
Após ter alcançado esta compreensão me sinto livre, para voltar a trilhar as velhas estradas batidas da experiência humana, cujas placas trazem sempre a mesma mensagem desde o início dos tempos e que nós, tão insistentemente nos recusamos a ler: O Amor, a única mensagem verdadeira. Amor no seu sentido mais amplo, que a mesmo a linguagem abstrata não consegue alcançar. Amor no sentido de compaixão, aceitação irrestrita. Aceitação da vida, da morte, das flores, das doenças, da função de cada pequena pedra no edifício da criação. Algo que a mente racional não consegue compreender, pois está sempre apoiada no solo do reducionismo, que tenta abordar o universo dinâmico e unificado de forma separada e estática. Funciona para construir foguetes, mas falha terrivelmente ao descrever a experiência, pois a experiência nunca poderá ser aprisionada em palavras e modelos.
Quando falo de aceitação, falo de uma aceitação que não implica apatia, como pensam alguns mas a compreensão de que sendo parte inseparável do todo, a própria não-ação já representa uma ação. Esta idéia(que venho estudando aos poucos, ultimamente), novamente, não pode ser incorporada pelo ego, que é justamente a estrutura que viemos construindo desde crianças para identificar como sendo o EU, separado do mundo. Eu sou um estudante, sou inteligente, sou carismático. E é interessante notar que nunca nos associamos aos atributos negativos, como "Eu não sou um guarda de trânsito do Alaska", como se tivessem menos importância. Mas o fato de eu não ser um guarda de trânsito no Alaska é muito relevante, pois se eu o fosse a minha vida seria completamente diferente. Dessa forma, pelo ser e pelo não-ser, estamos relacionados com todas as coisas do universo. Mas o nosso modelo de sociedade impõe que sejamos apenas algumas coisas, para que possamos nos identificar e separar do resto do mundo. Acabamos inclusive atacando aqueles que querem desconstruir esses poucos atributos que assumimos como "nossos", numa atitude digna de gargalhadas: “Você é um idiota! Não, você que é!” Seria realmente uma piada, se não fosse tão triste. A atitude de destruir o outro para preservar a si mesmo é a atitude vigente na nossa sociedade atual.
A grande mensagem do mestre Osho é justamente essa, a aniquilação da ilusão do ego. Aos que não conhecem as palavras do grande guru recomendo sinceramente a leitura dos textos dele. Termino com um pensamento dele para que possam saborear um pouco, com os corações abertos: (por coincidência, ou não, achei essa frase ao acaso num site e toca exatamente no tema desse post)
“A existência não pode ser forçada a ir de acordo com você; ela flui de seu próprio modo. Se você puder fluir com ela, você será positivo. Se você lutar contra ela, você se tornará negativo e todo o cosmos à sua volta se tornará negativo”
Osho
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Thinking with my Buttons...

Acabo de chegar em casa e senti necessidade de escrever. Saí com a minha mãe para assistir um filme e agora estou aqui, a conversar com o meu grande amigo, o teclado. Bem... uma das coisas boas de não estar muito em contato com a mídia é não saber quais são os filmes da moda, os ditos bons e os ditos ruins. Eu olho, leio a sinopse bem básica, se achar interessante assisto e tiro as minhas próprias conclusões. Foi o que aconteceu com "O Curioso caso de Benjamin Button".
Logo de cara eu me encantei pela história (vi a sinopse em um cartaz quando fui assistir a um outro filme chamado "Queime depois de ler", que também recomendo) e resolvi ver o filme. Através de um roteiro incrivelmente envolvente e inteligente (baseado no livro/conto homônimo do escritor F. Scott Fitzgerald) que consegue prender a atenção pelos 166 minutos de filme, o filme inspira profundas reflexões sobre as nossas concepções sobre o tempo, o envelhecimento, a morte, mas também a vida. De maneira sutil e bela, conduzido pela mui expressiva atuação de Brad Pitt e Cate Blanchett, O curioso caso de Benjamin Button nos leva a pensar sobre como vivemos nossas vidas, o medo do tempo e a necessidade e importância de viver cada momento como ele é: único. Além disso, o filme trata em última instância de uma questão bastante pertinente para a física (puxando a batata um pouco para o meu lado. Batata sim, deixem as sardinhas em paz hehehe), que é a questão da simetria. Não importa se estamos envelhecendo ou rejuvenescendo, se o tempo passa para a frente ou para trás (analogia extremamente inteligente a do relógio andando para trás, na minha opinião), as mesmas noções ainda valem: viver cada experiência por completo, cada coisa em seu devido momento, sem sobressaltos ou angústias.

A história encerra uma simetria impressionante, que contribui para a beleza do filme de maneira explêndida. O filme possui uma carga muito grande de simbologia e a tarefa de levar a cabo a interpretação dos complexos personagens do filme foi, volto a dizer, magistralmente carregada por Cate Blanchett e pelo Brad Pitt que, na minha opinião, é um excelente ator para representar filmes de drama (Quem ainda não assistiu, procure o filme "Encontro Marcado", onde Brad Pitt contracena magnificamente com Anthony Hopkins). Antes de tecer alguns comentários sobre a minha visão simbólica do filme, devo no entanto alertá-los sobre duas coisas: Primeira: Quem ainda não assistiu o filme, saiba que vale todos os 166 minutos do seu tempo! Segunda:

ZONA DE SPOILER!!
Dados os recados, posso continuar com as minhas elocubrações. O filme começa com a inversão do relógio e da ordem vital, que se faz notar logo no nascimento de Benjamin: Ele nasce, enquanto a mãe morre. Rotas diferentes para um mesmo fim. O filme trata bastante da inevitabilidade da morte e também de como esse fato pode ser encarado de maneira positiva. Vamos todos morrer um dia, sem dúvida. O que nos resta é a escolha do que fazer com o tempo que nos é dado, parafraseando Gandalf hehehe. Essa inevitabilidade é representada pelo nascer do Sol, que independente dos acontecimentos do mundo se levanta todos os dias. Na minha opinião, a cena do nascer do Sol é, além de extremamente bela, uma clara referência ao livro "O Sol também se levanta", do escritor americano Ernest Hemingway (livro esse que tive a feliz oportunidade de ler nessas últimas férias). No caminho para casa vim pensando na simbologia dos botões, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão definitiva ainda. De alguma maneira os botões representam o ato de abrir e fechar, numa analogia com o portão, possivelmente uma representação do início e do fim. Talvez.
Sem dúvida O Curioso caso de Benjamin Button é uma obra-prima e já estou aguardando ansioso para que ele chegue logo em dvd e eu possa tê-lo em casa para rever cada detalhezinho do filme.
Para quem de alguma maneira chegou até aqui, mas ainda não assistiu o filme, a mensagem que fica é: Corra para o cinema agora para assistir o filme. Bem... pela hora, talvez trocar o pijama por uma outra roupa possa ser uma boa opção ^^

