sábado, 27 de dezembro de 2008

Ser ou não ser ...vegetariano


Inevitavelmente quando vou aos lugares e de alguma maneira as pessoas descobrem que sou vegetariano, é como tropeçar dentro de um celeiro com uma vela na mão. Usualmente o tipo de comentário que surge é: "Você vai ficar desnutrido", "Não come carne, mas peixe você come, não é?", "O ser humano é naturalmente carnívoro", "Você vai emagrecer", "Você vai ficar fraco" e todo o tipo de coisa dessa linha . Mesmo que o ser humano fosse "naturalmente" carnívoro, o ser humano também morria "naturalmente" aos 50 anos até há poucos séculos atrás. Hoje em dia podemos ver a mudança executada por nós mesmos sobre a "natureza". Se fomos capazes de aumentar em quase 50% a nossa expectativa de vida em alguns anos (500 anos para o universo são o mesmo que um segundo para nós), como não seremos capazes de substituir os alimentos de origem animal?
Para aqueles que não enveredam logo por essa linha argumentativa (se é que se pode chamar isso de linha argumentativa, é mais um ataque gratuito), a conversa encontra um novo obstáculo ao alcançar a pergunta " Qual é o seu motivo para ser vegetariano?". Quando digo às pessoas que sou vegetariano pelos direitos dos animais, outra saraivada de questionamentos são lançados: "Você tem pena dos animais, mas e das plantas? Você não tem pena das plantas?", " Você se preocupa com o sofrimento dos animais, com tanta gente passando fome no mundo?", quando não enveredam por uma linha de argumentação pseudo-histórico-científica: "O fato do ser humano comer carne foi um fator importante para a evolução da espécie humana acontecer da maneira que ocorreu, para sermos mais evoluídos do que os animais". Muitos desses argumentos podem ser desmontados facilmente, embora eu sempre esteja aberto para recebê-los e analisá-los. Primeiro, o fato de que somos mais "evoluídos" do que os outros seres é altamente questionável, graças ao caráter ambíguo da utilização do conceito de evolução. Segundo, mesmo que em certa altura da história o fato de a humanidade ter se alimentado de carne tenha sido favorável para o desenvolvimento da espécie humana, não é de maneira nenhuma uma conclusão lógica a de que nós precisamos continuar a perpetuar esse ato ad infinitum. A Guerra Fria foi um grande fator responsável pelo desenvolvimento científico e tecnológico no século XX e nem por isso saímos por aí fazendo "Guerras Frias" a torto e a direito. Claro, a Guerra Fria foi uma circunstância, não um evento propriamente dito. Mas o exemplo serve bem ao propósito.
Mas há uma questão que eu diria ainda mais essencial e importante que permeia todos esses discursos. A questão fundamental é: Por que a atitude de ataque? As pessoas sempre se defendem como podem, utilizando os argumentos (e as armas) que conhecem para tentar me dissuadir da minha escolha. E Por que? Ninguém pára uma pessoa na rua e diz: "Mas você, por que você usa tênis e não usa sandália? O tênis esquenta muito, é desconfortável, contém vários derivados do petróleo... Não, uma situação deste tipo não ocorre. Ninguém pára uma pessoa na rua e diz: Por que você anda de ônibus e não de bicicleta? O ônibus está quase sempre lotado, é demorado, libera gases nocivos ao ser humano, contribui para a formação do efeito estufa... (embora essa seja uma pergunta muito mais pertinente do que a anterior). Mas todos me perguntam o por quê de eu não comer carne. Pelo simples fato de ser diferente, pelo simples fato de eu ter feito uma opção diferente da delas. É tudo o que isso é: uma escolha. Eu opto por não causar sofrimento desnecessário às outras formas de vida (sim, eu penso no sofrimento das plantas e não, eu não sei como resolver esse problema). Talvez as pessoas encontrem na minha escolha diferente o seu maior inimigo. O medo. Medo de ter feito a escolha errada. E como todos os medos, o responsável é o ego. O tamanho do ego do ser humano atual é suficiente para dar 10 voltas no sistema solar (Cientificamente comprovado! hehehe). A luta do ser humano com o ego encontra-se subjacente à muitas das grandes discussões travadas desde que o mundo é mundo. Não, eu não tenho ainda uma resposta definitiva para esse problema. Mas estou totalmente receptivo a sugestões hehehe.
Então tudo se resume a isso para mim. A vontade de não provocar sofrimento desnecessário a outras formas de vida. Essa é uma linha de argumentação que muito me atraiu e me atrai ainda hoje em dia, embora uma outra esteja surgindo para mim. Uma nova (nem tão nova assim, pois os indianos já a discutiam, milhares de anos atrás) visão sobre o sofrimento. Mas isso é matéria para muitos outros posts. Por hoje é só.

9 comentários:

  1. pois é cara, pela minha visão de mundo, como ja tinhamos tido uma palavra sobre isso, no principio de tudo a gente comia frutas, grãos e nozes. pelo que eu ouvi por aki da pra viver bem comendo isso, agora é muito complicado. outra coisa que tu falou ai em cima foi do sofrimento dos animais, acho q do sofrimento em geral. infelizmente nosso estilo de vida tras sofrimento, quase tudo que nós usamos machuca a alguem, quer sejam plantas, animais ou a nós mesmos. nao acredito que nós vamos conseguir fazer um mundo onde não haja sofrimento por nossas forças (pelo menos o sofrimento que os seres humanos trazem para o resto do mundo), mas isso não nos impede de tentar.
    parabens pela ideia do blog, bora fazer isso funcionar.
    té mais

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  2. Muito legal seu texto e suas reflexões.
    Ser diferente da "média" é realmente difícil. As pessoas não estão acostumadas a lidar com a diversidade, e temos sempre a tendência a desqualificar escolhas diferentes das nossas ou das escolhas comuns à maioria. Entretanto sabemos que essa tal maioria é composta (em geral) por pessoas que nunca pensaram sobre suas reais escolhas. Foram simplesmente "na onda". E me parece que o grande desafio de nós seres humanos consiste em pensar sobre nossas escolhas, nossos valores, enfim, o que nos constitui como indivíduos, o que nos dá singularidade. O caminho às vezes é difícil, mas é a unica possibilidade de entendermos quem realmente somos!
    Gostei! vamos continuar conversando...
    Izaura.

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  3. "Primeiro, o fato de que somos mais "evoluídos" do que os outros seres é altamente questionável, graças ao caráter ambíguo da utilização do conceito de evolução."

    Na verdade, o mundo é das bactérias e dos insetos, como meu pai diz, hehehee :P
    Eu respeito sua opção e apóio (em partes =p), afinal, você aquilo que come, e quanto menos "porcaria" se come, mais se vive e blá blá blá. Pois é, eu te apóio pela visão de estar fazendo bem pra sua saúde, mas também não apóio porque ao mesmo tempo faz mal o.o que estranho, não? Mas é, infelizmente a carne é necessária, senão ela não estaria naquela famosa pirâmide nutricional =p, mas eu vou parar por aqui, porque não tenho os conhecimentos necessários para afirmar se os nutrientes da carne podem ou não se repostos por outro alimento vegetal, hahaha :p Ah, uma coisa bem legal é a pimenta, eu queria muito conseguir comer com pimenta, porque faz bem pro coração :D

    Bom, é isso, eu gostaria de conseguir fazer isso que você fez, mas apenas pras carnes vermelhas e frango, porque peixe é indispensável com aquelas boas gorduras, hhehehe :p

    Beijinhos

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  4. ahh e outra coisa, lendo o primeiro comentário, lembrei que uma vez me disseram que se os humanos fossem extintos, o planeta não sentiria falta. Eu fui comentar isso com meu pai e ele acrescentou que na verdade a Terra agradeceria '-' faz sentido

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  5. hehe, pimenta faz bem pro coração, mas lenha com o estomago!!!

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  6. Eu ia comentar depois, mas não consegui esperar....rs

    Gostei do tom de desabafo, representando bem aqueles que optaram por isso também. E me incluo nisso...
    O ponto principal é que "evoluimos" de acordo com às circunstâncias, isso inclui nossa alimentação. Ao contrário do que muitos podem dizer é possível viver bem apenas com grãos, vegetais e frutas, essa já foi nossa principal fonte de energia. É ainda a principal fonte de energia de muitos dos nossos parentes primatas, chimpazés se alimentam de invertebrados só pra complementar a dieta principalmente em tempos onde as frutas estão difíceis. E como falamos de humanos, existe ainda a evolução social, já que não precisamos sair à caça ou à coleta, e sim às compras...rs. Isso quer dizer que encontramos alimentos vegetais durante todo o ano. E por isso essa escolha gera um questionamento e uma mudança social. E isso que considero o vegetarianismo. Uma evolução social, uma evolução ética onde deixamos de interferir tanto na existência de outros seres, de forma consciente, pois encontramos nessa opção toda a energia que precisamos sem ter que gerar tanto sofrimento.
    Abração!

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  7. Essa coisa de evolução atrelada à escolha é de uma forma geral o conceito que vc introduziu bem Gabriel. Mas quanto ao fato de deixar de interferir na existência de outros seres, eu me questiono bastante em relação a isso. Acho que certamente em alguns anos a ciência tem condição de colocar todos os nutrientes necessários à nossa sobrevivência dentro de uma cápsula só. Nós ingeriríamos apenas uma cápsula por dia e nos sentiríamos satisfeitos, não duvido disso. Mas será que realmente é isso que nós precisamos fazer, nos isolar do resto da natureza? Eu me pergunto até se isso é possível, se considerarmos a perspectiva de a Terra ser um organismo vivo como um todo. A perspectiva de uma relação de TROCA, com a natureza, sem exploração, me parece muito mais aceitável. Vivermos plantando os nossos alimentos, criando uma relação de harmonia e troca com a natureza me parece ser um caminho. Mas ao mesmo tempo uma vida com a natureza nos traz logo à mente a idéia de não convivência com a sociedade. Precisaríamos encontrar um meio termo, nem viver isolados numa montanhas, nem destruir os outros seres da maneira que fazemos hoje em dia... É um problema complexo hehehe

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  8. Bem, eu era uma dessas pessoas que perguntava 'Por quê você é vegetariano', já que não resistia a uma boa carne vermelha e simplesmente não entendia como qualquer pessoa pudesse resistir a uma picanha! XD Com o tempo (e com a escassez de picanha), passei a entender um pouco melhor os vegetarianos, assim como a desgostar um pouco mais de carne vermelha. (mas pro meu dia estar completo, só preciso de carne moída)
    Por outro lado, o argumento de defesa dos animais pra mim é indiscutível. Eu posso até me aventurar a perguntar por que um vegetariano é o que ele é, mas não dá pra discutir sobre o porquê de algupém querer defender os animais. Tudo bem, só parar de comer os bichinhos não vai salvá-los, mas já é um bom começo.
    (quando eu tiver pena dos boizinhos juro que paro de comê-los)

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  9. Sempre há uma bipolaridade em comentar assunto de tão grande profundidade(não leia-se pelo lado da ambiguidade-rs) quando o momento em que o fazemos é necessário, porém, ainda, pouco compreendido dado a proporção que deveria ter.
    Tentarei me abster de maiores explicações e explanarei de forma(espero) compreensível a respeito do meu pensar sobre o vegetarianismo!
    Não vou enveredar pelo contexto histórico da INvolução humana, pelo menos neste aspecto.
    A questão básica é: qual o motivo de você comer carne?, e não o contrário. Chegamos num ponto que tornou-se indiscutível, pelo ponto de vista lógico e não teórico(não tentando excluir a correlação desses assuntos), o ato de consumir carne- o mínimo que deveria ser feito, pelo menos para começar.
    As pessoas fomentam um discurso e vários "questionamentos", (valendo ressaltar que os mesmos não são próprios - vide apelos midiáticos) para justificar as atrocidades envolvidas no ato de colocar a carne no prato.
    Não posso deixar de entrar numa questão ...(faltando-me palavras)... espiritual da coisa. Tenhamos um mínimo de boa vontade mental para nos compararmos às formas de vidas, ao menos, terrenas. Somos superiores? Ao menos conseguimos ir de encontro ao que nos vendem na televisão. Vaquinhas sorrindo nas embalagens de leite e manteiga? Tão meodíocre...! PODRE!

    SAÚDE - Aos que acreditam na indispensabilidade da carne na pirâmede Nutricional, vale procurar fontes alternativas de conhecimento. Ler Nietzsche e a Biblia não é ser contraditório, é NECESSÁRIO, cria senso crítico, nutriente que nos faz mais falta.

    NÃO É UMA QUESTÃO DE PENA, É UMA QUESTÃO MORAL, ÉTICA, CONDIÇÕES HUMANAS E HUMANIDADE. SIM, NÓS, HUMANOS, NÃO SOMOS CARNÍVOROS. - ESTA FOI PARA ÀQUELES DOTADOS DE SAPIÊNCIA E "RAZÃO"(kkkkkkkk)
    Como diria Dinho(Mamonas Assasinas): _Pelo AMOR de Deus, PAREM COM ESSA PORRA!!!!!!!!!!!!!

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